segunda-feira, 29 de junho de 2009

O sobrado

O sobrado,assim meu pai chamava a nossa residencia.De fato era muito grande e imponente.Lá passei cerca de dez anos confinado,explicando bem,dos cinco aos quinze anos só saía com meus pais ou meu irmão na férias dele ou para ir de condução para o colégio.Foi a forma de meu pai educar-me.Meus dias eram passados,só,em casa,estudando,lendo muito,pois ganhava livros e livros dele,tendo sido possuidor e leitor das maiores e melhores coleções,tais como,as obras completas de Monteiro Lobato;uma coleção maravilhosa,de dois tomos,intitulada"os grandes benfeitores da humanidade",onde eram descritas as invenções que mudaram o curso da vida no planeta,tais como as máquinas a vapor(Fulton e Stephenson),as aeronaves(Santos Dumont,os irmãos Wright,padre Bartolomeu de Gusmão),as vacinas(casal Pierre e Marie Curie),o telefone(Grahamm Bell),o pararraios(Benjamim Franklim),a lâmpada elétrica(Thomaz Alva Edson)e todas as grandes descobertas da idade moderna(ainda lembrei de algumas),mais as obras completas de Luiz Vaz de Camões e de todos os grandes mestres da literatura portuguesa,pois meu pai era muito patriota e ligado a Portugal,daí o nome dos filhos,meu irmão Sidonio,em homenagem ao presidente português,quando ele nasceu(Sidonio Paes) e o meu em homenagem ao embaixador português no Brasil,quando nasci(Theotonio Pereira).Também,desde cedo,lia vários jornais e revistas,pois meu pai,assinava dois jornais,diariamente,um matutino,o Diário Carioca e outro vespertino O Globo,além de revistas,como o Cruzeiro e para minha mãe as revistas,Fon-fon e a Revista do rádio.Fora a leitura,em casa,a noite,ouvia,com bastante chiados,dois seriados de aventura,que se sucediam na Radio Nacional,sob o patrocinio do trio maravilhoso Regina,talco,sabonete e lavanda Regina e que eram,"Jeronimo,o herói do sertão",às 18:30 e às 18:45 o "Anjo",um detetive,ambos combatendo os malfeitores,que então não estavam no Governo do Brasil.De dia,quando não estava estudando ou lendo jogava botão,em diputadíssimos campeonatos,que seguiam o calendário e as tabelas dos campeonatos de então,ou seja,o RioxSão Paulo,no primeiro semestre e o campeonato carioca,a partir de maio/junho.Sabado era dia útil,normal,com aula e tudo e aos domingos era o dia social,com almoço da familia,na casa de meu avô Antonio Madeira,à rua Conselheiro Zenha 82,também na Tijuca,próximo a Praça Saens Peña e as noites a visitas,que eram um saco,tanto as feitas,como as recebidas,mas eram os momentos de brincar com primos e "amiguinhos".Nas férias era muita pelada,de bola de meia,no terraço,com meu irmão,quando ele chegava para as férias dele,saídas com ele para ir a praia e aos domingos o Maracanã,ver o clássico da semana,juntamente com meu padrinho e tio Arthur,todos tricolores,em uma época em que o FLUZÃO ganhava em todas as categorias e esportes.Nos feriados,em geral,era dia de piquenique e lá íamos nós,eu,meu pai e minha mãe,com um delicioso farnel,para ou Ilha do Governador(não tinha ponte)ou ilha de Paquetá,ambos os passeios de barca,ou ainda para a Quinta da Boa Vista.Enfim,um vida,para os padrões de hoje monotona,mas gostosa,simples,amiga, saudável,de valores familiares e de exemplos paternos,além de ter me proporcionado conhecimentos eruditos fabulosos.As refeições eram sempre,durante a semana,em casa,com nós três e mais Sidonio,nas férias,sentando juntos,com meu pai a cabeceira,sempre muito bem vestido,comandando-as.Ninguém podia faltar ou atrasar-se e cada um tinha a sua missão,mesmo com empregada,que só fazia a comida.Minha mãe a trazia para a mesa e servia a todos,sempre primeiro meu pai e eu era o responsável por colocar a mesa,prato,talheres,suportes,tudo enfim e de tirá-la ao fim das refeições.Também nos quartos de dormir cada um tinha de fazer a sua cama e de arrumá-lo,cabendo a empregada a missão de varrer e espanar.Roupa suja era colocada no cesto,próximo ao tanque e cabia a empregada,lavá-la e passá-la.Minhas aulas eram pela manhã,cabendo a mim descer a padaria,entrar nela,ainda fechada,pelos fundos,pegar o pão e estar pronto,de café tomado às 06:45,quando a condução vinha pegar-me na porta da padaria.A tarde,após o almoço,estudo,ao lado da mãe,que costurava ou ocupava-se de alguma tarefa doméstica.Foram muitos bons e educativos esses momentos.Ah,eu tinha de diariamente engraxar meus sapatos,que tinham de estar brilhando,além de pentear meus cabelos impecavelmente,com Gumex.As minhas artes,quando ficava sozinho,eram dentro de casa e bem aventureiras.Foram sempre arriscadas e meus pais delas não sabiam.Consistiam em descer pela grade das varandas e andar sobre a marquise,passando assim de meu quarto para a sala de visitas e vice-versa,sempre com cuidado de pisar apenas nas partes de sustentação da marquise;outra era por uma escada de madeira,subir ao sotão e lá andar,também pisando somente nos caibros,pelo meio da poeira,teias de aranha,por toda a parte de cima da casa,às vezes tirando as telhas,para olhar em volta,principalmente o que ocorria nas casas em volta e sempre pintava um mudançazinha de roupa de alguma vizinha bonita(naquele tempo avistar um pedaçinho da coxa,já era motivo de festa);outra,era descer pelos fundos do terraço para o telhado da padaria e voltar,sem qualquer motivo,só para gastar o tempo e as energias;também constava de deixar,sem querer,querendo,cair alguma coisa na casa da vizinha do lado da rua Antonio Basilio,a D. Mariazinha,um viúva chata,que vinha reclamar com meu pai,que me dava uma corrigenda,mas não deixava de com ela defender-me,dizendo uma célebre frase:"ora tu moras embaixo..."Aliás as corrigendas que não foram muitas,ainda bem pois a mão dele era pesada,o foram sempre merecidas e apenas quando eu não cumpria,de imediato,alguma ordem ou horário.Este foi,em minha vida,o sobrado.Madeira

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