sábado, 27 de fevereiro de 2010

A Faculdade de Direito Cândido Mendes(1960/64)

Como eu não suportava ciências exatas,tendo mesmo grandes dificuldades com Matemática,Fisica,Quimica e similares,fugi delas desde o hoje ensino médio,indo fazer curso clássico,onde elas não existiam e depois escolhendo uma área de ciências sócio-humanisticas,no caso Direito.Decidida a área,no final de 1959,com o clássico concluído no Andrews e muito bem preparado,pois efetivamente o Andrews era e é um excelente colégio,inscrevi-me em dois vestibulares,então classificatórios e dificilimos,pois a relação candidato vaga era de uma discrepancia imensa.Escolhi a Nacional,federal e a Cândido Mendes,particular a mais antiga e tradicional do Rio,sita em um casarão,onde inclusive tinha residido D.Maria I,mãe de Dom João VI,conhecida como D.Maria,a louca,do qual ainda existe parte,tombada,na Praça XV,em frente a estação das barcas.Passei em ambas,a Cândido em terceiro lugar e optei por ela,apesar de ser paga,face aos movimentos estudantís de então,contra tudo e todos,que levavam a Nacional a viver em greve e sem aulas.O vestibular de então era em duas etapas,a primeira eliminatória e a segunda classificatória,matriculando-se os cem primeiros colocados no somatório das duas notas.A primeira fase era escrita e constava de dois dias de provas escritas,constantes sempre de uma questão discursiva e de duas outras de perguntas,que tinham de ser respondidas desenvolvendo-se um raciocinio(não existiam então questões objetivas).No primeiro dia a prova era só de Lingua Portuguesa e no segundo dia de História e Geografia e de uma lingua estrangeira,à escolha quando da inscrição e que eu tinha optado por françês,todas com questão discursiva,inclusive a lingua estrangeira.Lavei a égua,graças ao Andrews e sem fazer cursinho pré vestibular como todo mundo fazia,sendo na área de Direito o principal o curso Helio Alonso.O curso na Cândido Mendes foi excelente,mesmo eu fazendo parte dos segundo e terceiro ano,assistindo as aulas pela metade,em um tipo semi presencial(foi quando eu fui para Brasilia e entrei para a GEB,isto em 62/63)graças aos meus colegas e a me desdobrar e provar aos professores que o conseguiria.Os professores eram as maiores sumidades de Direito da então Capital Federal,juizes,desembargadores,ministros,autores de livros e com vantagem sobre a Nacional,pois tinham a prática diuturna.Posso citar Celio Borja,o maior constitucionalista brasileiro,que depois foi Ministro da Justiça,os irmãos,ambos juízes,Eliezer e Eleazar Rosas,Cristovam Breiner,um dos maiores civilistas do País,autor de vários livros,João Baptista da Costa,professor de Economia Poltica,também autor consagrado,Heleno Fragoso,o maior criminalista do Brasil,com livros até hoje insuperáveis nessa área,Helio Gomes e seu inseparavel charuto,craque em Medicina Legal,com livros até hoje biblias no assunto,dentre outros.O curso era extremamente puxado,em ritmo anual,não semestral como hoje,dividido em dois semestres,com aulas direto,sem faltas de professores,com dez pontos dados em cada semestre e provas parciais ao final de cada semestre,escritas e orais e depois no final do ano,após as segundas provas parciais,as provas finais,também escritas e orais,com os pontos sorteados pelo inspetor federal,que acompanhava as aulas ocasionalmente e as provas direto.A nota para passar de ano era cinco e sem contemplações,ou seja,ao final não alcançou cinco estava reprovado,podendo sê-lo em até duas matérias que então levava para dependencia,que fazia no ano seguinte,ou seja,já aí atrasava um ano,mas só fazia as disciplinas da reprovação.Se ficasse em mais disciplinas reprovado tinha de fazer todas,mesmo as que tinha sido aprovado.Durante os meses não existiam provas,somente ao final do semestre,conforme calendário,primeiro as escritas,uma por dia,durante os cinco dias da semana(eram senpre,durante todo o ano,cinco disciplinas) e na semana seguinte as orais,também conforme calendário e sem possibilidade de faltar,que significava zero,salvo faltas legais.Ambas eram aterrorizantes,mas as orais eram mais,principalmente as finais,onde você já entrava sabendo quanto precisava para passar,que era o que faltasse para fazer a média aritmetica cinco e na qual caíam todos os assuntos dados no ano.Assim,o ideal era fazer-se o máximo de pontos durante as provas parciais para entrar nas finais precisando de pouquíssimos pontos.Nas parciais era só o professor da disciplina e o inspetor e após você sentar na cadeira perante ele,sem o apoio de nada e de ninguém,com a turma as suas costas,sorteava o ponto e aí ele perguntava o que queria e da forma que queria e você não sabia da nota da hora,que depois era afixada na secretaria.Na final era muito pior,pois você era examinado por uma banca de três examinadores,com a presença do inspetor federal,sendo que o titular da disciplina,após o ponto sorteado por você,dizia o nome do mesmo e mandava você dissertar a respeito,assistindo a tudo impavidamente,sem tugir,nem mugir e você pensando fui bem?,Acertei?Depois ele dizia pode passar para o outro examinador e os outros dois sucessiva e independentemente faziam perguntas soltas sobre o ponto,a maioria sem te ajudar em nada.Ah,o vestibular também funcionou assim...Era foda e comparado com hoje então de lascar mesmo,sem maiores chances.Você tinha de ler muito,estudar muito mesmo.Eu estudava as manhãs e tardes em casa e quando em Brasilia devorava os livros em cima dos programas das disciplinas que recebiamos no inicio do ano,junto com as bibliografias.Eram cursos dificeis,puxadíssimos,mas quem se formava sabia mesmo.Nem precisava e existia prova para a Ordem.Quando voçê terminava o terceiro período,tinha de ir a Ordem e inscrever-se como solicitador,recebendo então uma tipo pré carteira da Ordem,com a inscrição de "Solicitador",que lhe dava direito de assistir a advogados,de frequentar os foruns,acompanhar ações,etc.A minha teve o número 777,o que me fez não esquecer desse fato.Foi um curso excelente,no qual tive um ótimo aproveitamento,terminando-o com média geral/final de 8,04,o que me permitiu inscrever-me no curso de Doutorado da Nacional,único que havia então no Rio,que fiz depois(à época não havia curso de mestrado,apenas de doutorado,no qual podiam inscrever-se quem tivesse média geral acima de oito no curso e sete de média por disciplina).As disciplinas cursadas de que me lembro foram Introdução ao Direito,Direito Romano,Ciência Politica,Economia Politica e Ciência das Finanças,no primeiro ano e depois Direito Constitucional,Direito Penal,Direito Civil,este dividido pelas suas áreas,parte geral,Familia,Sucessões,Coisas,em vários anos,Direito Processual Penal,Direito Processual Civil,Direito Trabalhista e Previdenciário,Direito Internacional Público,Internacional Privado,Medicina Legal,Direito Economico,Direito Financeiro,Direito Admlnistrativo,enfim,para então um currículo excelente.De lá lembro também de que certa feita a UNE tentou fazer ma greve,impedindo que os alunos entrassem para fazer as provas parciais e nós os peitamos e entramos na marra.Valeu minha Faculdade querida e séria,exemplar.Madeira

Um novo ciclo:1960/61,com o CPOR/RJ e a o curso superior

1960 marcou uma radical tranformação em minha vida face ao ingresso no curso de Direito,na Faculdade Cândido Mendes(também passei na Nacional,mas preferi a Cândido face aos continuos movimentos e greves estudantís da Nacional)e a prestação do serviço militar no curso de Infantaria do CPOR/RJ,com isso associando-se ainda a aposentadoria de meu pai,consumada com a venda da padaria Lais e a nossa mudança para Vila Isabel,para a rua Souza Franco 462,encostado na avenida Vinte e Oito de Setembro.A nova casa,comprada por meu pai,era um sobrado(ele gostava de sobrados),tinha o número 102 e entrada ao lado do terreo,por uma única porta,que dava acesso,por uma escada,de uns trinta degraus,a um hall,onde meu pai colocou a sua escrivaninha de madeira,onde ele apoiava os jornais diários que lia e fazia suas anotações,recibos dos aluguéis,outros;atrás dessa escrivaninha ficava o quarto do casal e o quarto de vestir,o primeiro com uma pequena varanda e o outro uma janela,na qual meu pai ficava horas olhando os passantes,a maioria conhecido e que o cumprimentavam;no quarto de dormir uma cama de casal,com duas mesinhas de cabeceira e os respectivos abatjours e em frente,no quarto de vestir,na lateral da janela,um imenso guarda-roupas e ao lado uma comoda de seis gavetas,poucos móveis e sóbrios,características de meus pais;em seguindo a esquerda do hall,um corredor,que conduzia até a sala de jantar,na lateral do mesmo ficando os dois quartos,um com minha cama e armario e no outro um monte de bagulhos,tipo máquina de costura;na sala de jantar,ao adentrar nela,uma bela cristaleira,plena de cristais,copos,taças, chicaras,outros,tendo ao lado uma velha e gostosa cadeira de balanço,a frente dos quais tinha uma mesa de refeições com seis cadeiras e um porta louças de madeira,com a janela lateral;após,na reta o grande banheiro,com banheira,a esquerda do qual tinha uma pequena dispensa,de prateleiras e a direita a cozinha,tudo terminando em uma boa área descoberta,com uma lavanderia,tanque e máquina de lavar.Era pequena e grande,pois tinha todos os compartimentos amplos e bons e no entanto era bem compactada.Casa nova,fora do Confiança,da Atletica Carioca,sem outros registros esportivos em Federações,longe da turma da José Higino(frequentada de 51 a 59),das peladas e programas de adolescentes,com a maioria dos membros da turma já trabalhando,eu estudando de noite,com os sabados e domingos,quando das aulas,no CPOR(mais um fator impeditivo de disputar torneios oficiais) e quando das férias academicas a semana toda no CPOR,estudando que nem um desesperado(isto era em dezembro,a partir do dia 15 até a mesma data de fevereiro e todo o mes de junho/julho(era assim porque só podia fazer CPOR quem era academico e o calendário do CPOR não podia bater com o das Faculdades),minha vida mudou muito.Antes eu vivia de mesada e,à exceção do Confiança,onde eu distribuía o que recebia,das gratificações dos times porque jogava e agora eu tinha salário,o de aluno do CPOR e tinha de pagar a Faculdade,pois a partir de então não aceitei mais que meu pai pagasse meus estudos.Namoro também passou a ser ocasional,quando dava e as coisas começaram a mudar mesmo.Politica na década de 50 e inicio da de 60 era feita através de inumeros partidos,mas com quatro dominantes,a UDN de Carlos Lacerda,o maior tribuno e administrador público que conheci,partidoque hoje seria tachado de direita,o PSD,conservador,o PTB de Getulio Vargas,populista/berço do sindicalismo e o PRP,paulista,de Adhemar de Barros.Sempre inclinei-me pela UDN,pela rigidez ética com que se comportavam seus membros,todos de uma lisura impar e pela politica economica liberal,pois acredito que,ainda que o Estado tenha que ter meios de controle,para evitar os excessos humanos,o homem tem de disputar,de buscar o que de melhor sua capacidade consiga e não viver de esmolas governamentais.Madeira

Os demais esportes nesse ciclo:1956/59

O Colégio Andrews não tinha,nem tem,como bandeira a prática esportiva do alunado,tendo nos três anos que lá estive,cursando o clássico,apenas em um ano uma disputa de uma olimpiada com o colégio Getulio Vargas,da Fundação do mesmo nome,em Friburgo,no qual compareci,pelo time de futebol e fomos derrotados por 3 x 1.Mas foi uma viagem gostosa e esculhambada de quase uma semana e nós ficamos hospedados lá no colégio deles,que fica no cimo de uma ladeira muito íngreme e o maior trabalho era recuperar os bebados,que não conseguiam subí-la no fim da noite.Imaginem só,uma delegação esportiva composta de filhinhos de papai,todos residentes na zona sul(Copa,Ipanema,Leme,Leblon,eu era,acho que a única exceção),soltos em uma cidade estranha.Ainda bem que não existiam drogas,só bebidas alcoolicas.Fora o futebol de campo,nesse período na Portuguesa e depois,de novo,no Confiança,eu continuava,durante a semana a jogar minhas peladas com a minha turma da José Higino,normalmente nos campinhos do Colégio Batista,no alto da José Higino,joguei ainda futebol de campo pelo Alvorada do Encantado,levado pelo Russo,quarto zagueiro do profissional da Portuguesa e que depois foi para o Vasco,substituir o Orlando Pessanha,bi-campeão que foi para o Boca Juniors(lá no Alvorada era chamado de Bibinho,apelido de infância),para onde fui para jogar um torneio amador patrocinado pelo jornal "A Noite".O campo do Alvorada(que tinha um time muito bom,fomos vice-campeões desse torneio),era no suburbio do Encantado,logo depois de Engenho de Dentro e tinha como caracteristica,ser em um local onde existiam vários outros campos de futebol amador próximos,como o do Dinamo e o do Maravilha de Quintino,bairro vizinho,onde começou a jogar o Zico.Nosso campo,no sentido de quem chegasse(não era um estadio,pois era aberto,tinha a direita,um riacho,bem imundo por sinal,onde a bola caía às vezes e onde o nosso lateral direito,o Mario Português,que como o nome diz era grosso,jogava de vez em quando um ponta esquerda,mais veloz.Também disputei o campeonato de futebol de salão da cidade pelo juvenil da Associação Atlética Carioca,que ficava também em Vila Isabel,um bom time que ficou entre os classificados da chave urbana,disputando o super campeonato e ficando em terceiro lugar,sendo campeão a AA Vila Isabel,à época dona dos melhores times do Rio.Com isso joguei em todos os campos amadores e profissionais do Rio,bem como em todas as quadras e ginásios.No futebol de salão joguei entre outros nas quadras do Flamengo,Vila Isabel,Maxwell,Carioca da Gávea,América,Grajaú,Atletica do Grajaú,Club Municipal,Raio de Sol,Social Ramos,Bonsucesso,enfim em todas de então.Assim,entre os estudos pelas manhãs no Andrews,reuniões e peladas com a minha turma,jogos de torneios oficiais nesses clubes e nessas modalidades,namoro firme com a Gina(foram cerca de seis anos de namoro),passeios e peladas ou jogos em outras cidades vizinhas do Rio,passei esse ciclo,sendo que no próximo tudo se transformaria radicalmente.Madeira

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Confiança em 1960 e o fim desse ciclo futebolistico

Os meses entre Natal e Carnaval eram de recesso e assim somente em fevereiro de 1960 foi disputado o super campeonato para consagrar o campeão carioca amador de 1959.Bem,nós não eramos mais a surpresa(todos os outros já disputavam o campeonato há anos e se conheciam) e a parada do campeonato nos desarticulou e fomos mal,conseguindo apenas 8 pontos ganhos,contra 12 do campeão que foi o Campo Grande,esse mesmo que até hoje disputa o campeonato carioca,ora na segunda divisão.Nossa classificação final foi,em um campeonato equilibradíssimo,em que a diferença entre cada um foi de um ponto,em quinto lugar,a quatro pontos do campeão.O último jogo desse campeonato representou a minha separação,o fim da minha carreira no Confiança,ocorrida,tanto pelo baixo nível de compreensão de torcedores,como pela minha arrogancia,ao entender melhor que a massa de operários de futebol e fazer como eu achava que devia fazer.Também pesou eu namorar a garota mais bonita da fábrica,a Gina e já então estar(1960)no CPOR e volta meia,face aos horários chegar lá fardado de aluno-oficial.O que ocorreu foi o seguinte:último jogo do super campeonato,no nosso campo,contra o São José e se vencessemos seriamos vice-campeões e se empatassemos ou perdessemos seriamos quarto ou quinto.Jogo igual,disputado,virou um a um e nós partimos para cima e eu,então capitão do time,mandei meus beques avançarem e fui jogar adiantado,na altura da linha média.Os torcedores,que já implicavam por eu não dar saída dando balão para o alto,reclamavam e eu ignorava.Ganhei uma ou outra bola esticada,mas em um contra ataque rápido,pelo chão,o centro avante do São José,um lourinho rápido,muito ágil,apelidado de "Manteiga"(era de fato muito escorregadio),caiu pelas costas de nosso quarto zagueiro e quando eu fui de encontro a ele,já pensando em fazer a falta(naquele tempo não tinha nada de último homem,nem cartões)ele deu um toque de biquinho,quase do meio dde campo e fez o gol da vitória do São José.Fim de jogo,de campeonato e de seis anos de Confiança,pois discuti com algumas pessoas,mandei se fuderem e informei que não mais jogaria pelo Confiança,o que aliás estava muito complicado face aos estudos,já na Faculdade e ao CPOR.Recebi um apelo do técnico,o seu Amancio,sábio e ponderado de esperar um pouco e fui dispensado por um mes para esfriar a cabeça,aparecendo apenas para as homenagens pelo título da zona urbana,mas confirmei a minha decisão(devo ter sido mais uma vez arrogante e dono da verdade,mas...)e depois ficou acertado,que eu faria um jogo de despedida,jogando meio tempo contra o juvenil do Flamengo,o que fiz,saindo no intervalo,vencendo por um a zero,com a alma lavada.Parei nesse ano com disputa de jogos oficiais,mas o Confiança nunca me saiu e sai da cabeça,por tudo que vivi e aprendi lá de futebol,além de ter convivido com pessoas simples e maravilhosas,como os demais jogadores,funcionários(seu Almeida,o roupeiro e o Nilton,o massagista) e meus técnicos,tanto no infanto(o Duca),como no amador(seu Amancio).Tenho ótimas recordações,tenho saudades e certamente quem errou mais uma vez fui eu,por excesso de confiança(sem trocadilho).Depois de desligado do Confiança,secura como era,fui jogar no Senhor dos Passos,equipe da região árabe do centro do Rio,que era tricolor,como o meu Flu,mas logo depois fui para Brasilia e aí abandonei o campeonato carioca do Departamento Autonomo.Antes de ir para o Senhor dos Passos disputei o campeonato amador do Estado do Rio pelo Frigorifico de Mendes,para onde eu ia toda sexta feira de trem,concentrava e jogava...Madeira

O Confiança em 1959

Em 1959 o Confiança que já tinha disputado o Campeonato Metropolitano de Futebol,quando ainda era amador,nas décadas de 20 e 30,resolveu voltar a disputar campeonatos patrocinados pelo Departamento Autonomo da Federação Metropolitana,como time amador que era.Estadio aprovado,jogadores registrados,lá fomos nós disputar o campeonato de 1959,que terminaria no primeiro trimestre de l960,face a uma excursão da seleção do campeonato,de duração de quase quatro meses,no tempo de recesso dos campeonatos europeus,de maio a agosto,para aqueles que se classificassem.O campeonato do DA era disputado dentro de series,buscando com isso diminuir os deslocamentos dos times e aproveitar-se das rivalidades dos bairros.Existiam três series,batizadas pelo nome da área de localização dos times que as compunham.A Série Central,onde o Confiança se inseria,que era disputada em turno e returno,com jogos no campo próprio e o outro no do adversário,pelos times com campo situado no centro e nos bairros do Rio;outra dos times situados nos suburbios do Rio,das ligações ferroviárias,tanto da Central,como da Leopoldina, denominada de Série Suburbana e a terceira de clubes apenas da então zona rural do Rio,chamada de Serie Rural,cada uma serie com oito clubes.Os dois primeiros de cada serie classificar-se-iam para o super campeonato que indicaria o campeão carioca de 1959.A lembrar,alguns clubes que tivemos na Serie Urbana,a nossa,eram o Atilia,da zona portuária do Rio,o Del Castilho,do bairro do mesmo nome,o Nova américa da fábrica de tecidos do mesmo nome(tinha um campo excelente),o Paredense de uma Viação de onibus,o Expressinho da Tijuca(do Alto da Boa Vista),o Senhor dos Passos do centro do Rio,do Saara;nas outras series,Campo Grande,Manufatura,Oiti,de Bangu,Irmãos Goulart de Olaria,São José de Magalhães Bastos,dentre outros.Bem,na fase classificatória,iniciada no primeiro domingo de maio,dia três,com o Torneio Inicio,tivemos uma excelente participação,classificando-nos para o super campeonato,como campeões da nossa chave,com 19 pontos ganhos,nove vitorias,um empate e duas derrotas,trinta e dois gols pró e 16 contra,sendo o segundo a Viação Paredense.Nas outras chaves classificaram-se Manufatura e São José,na suburbana e Campo Grande e Oiti na rural.Então foi o campeonato interrompido para a formação e treinamento da seleção que iria excursionar na Europa,por três meses e meio,com um total de 44 jogos,praticamente de três em três dias,sempre contra times amadores,de toda a Europa.Fui convocado,juntamente com o goleiro do Campo Grande,um também lourinho,apelidado de Castilhinho,em referencia ao goleiro do Fluminense.A apresentação foi no campo do São José,em Magalhães Bastos e lá foram os treinamentos.Tudo bem,mas logo concluí pela impossibilidade de viajar e passar mais de três meses fora e em época de provas,podendo perder o ano de estudos(estava no terceiro ano do curso clássico)e inclusive prejudicando o meu futuro vestibular,além da oposição de meu pai e pedi dispensa da seleção,o que foi uma dentro,pois depois pelas noticias nos jornais soube-se que deu tudo errado,com os atletas passando dificuldades,face aos empresarios não pagarem as diarias,com as quais eles se alimentariam e sobreviveriam,jogos as vezes em dias seguidos,viagens desconfortáveis,maus hoteis,ou seja,só os empresarios ganhando dinheiro.Essa aventura redundou,face aos resultados negativos e aos relatos dessas ocorrencias negativas,em a seleção do DA,ficar conhecida nos noticiários como "seleção cacareco".Voltamos nesse período a jogos amistosos...Madeira

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Campanha do Confiança em 1958

O Confiança e sua razoavel torcida,podia ter muito mais porque representava a fábrica e em volta da mesma e do campo moravam todos os empregados da mesma,em vilas e casas de um andar para os operários e em casa de dois andares para os chefes,mas a maioria não ia aos jogos,salvo quando contra os clubes famosos do Rio,quando iam lá jogar amistosos ou nos campeonato carioca infanto que disputavamos,tem uma história no futebol do Rio e acabou junto com a Fabrica.Bem tinhamos um bom apoio da Fábrica,com premios e homenagens nas datas do clube,no Natal e Ano Novo,bailes de Carnaval na sede social,encostada no estadio,cerca de cinquenta metros,um prédio grande de dois andares,com salas de troféus,de jogos de salão e secretaria em baixo e um grande salão de bailes e bar/restaurante em cima.Além disso recebiamos uma quantia por treino e por jogo disputado,sendo esta variável,dependendo do resultado,um minimo,normalmente o da passagem nas derrotas,mais um pouco e nas vitorias um pouco mais.Eu poderia hoje,tentando comparar,que seria um minimo obrigatório de cinquenta reais pela ida e participação,cem reais nos empates e duzentos nas vitorias.Nos treinos seria cinquenta reais.Eu desde o infanto,que recebia mais ou menos a metade desses valores,nunca fiquei com esse dinheiro,que equivalia,mais ou menos a minha mesada e que era pago no vestiário,logo após os jogos,com uma relação onde assinavamos o recebimento.Eu o recebia e o dividia entre o Seu Almeida,roupeiro o Nilton,massagista,que precisavam mais do que eu e me serviam.Resultado:minhas chuteiras e neu uniforme eram os mais bem tratados,aquelas engraxadas e sem pregos(naquela época as travas eram pregadas) e estes muito bem lavados e cheirosos,havendo até ciúmes.Também minha massagem era especial,mais demorada,com óleos a mais e eu era o único que também tomava a massagem depois do banho e dada com talco perfumado.Nossos uniformes eram lindos.O primeiro uniforme era de meias pretas,vermelhas e verdes,calções pretos e camisa verde,com faixa horizontal,a altura do peito,intercalando as cores vermelha e preta,com a gola vermelha enas beiradas das mangas as mesmas faixas do peito.Os números eram pretos e ao centro do peito ficava o escudo,que era belíssimo,com contorno de brasão,imitando em cima as colunas de um castelo medieval,na cor vermelha,com as mesmas faixas em diagonal e uma bola de futebol amarela,aparecendo,meia apenas,a direita das listas,em baixo.O segundo uniforme,que era obrigatoriamente branco e destinava-se a ser usado quando se jogava no campo de adversario e os uniformes fossem parecidos,era ainda mais bonito,com os calções brancos ou pretos,meias brancas com as listas em cima e camisas brancas com as mesmas faixas e números verdes.Eram muito,mas muito bonitos mesmos.Não existiam outros uniformes,só dois(o primeiro e o branco) e obrigatoriamente inscritos na Federação.O nosso vestiário ao entrar-se tinha a esquerda os banheiros,tanto o WC,como os chuveiros e em frente em U os bancos com os cabides acima e o estrado abaixo,tendo ao centro a mesa de massagens e ao fundo a rouparia,com a janelinha pela qual recebiamos os uniformes e chuteiras.Eu tinha,como todos os goleiros de então(até o Poy,goleiro argentino do São Paulo,jogar determinada partida com uma camisa preta do massagista e depois o Raul inventar a camisa amarela)dois uniformes um todo azul e outro todo cinza e os alternava,ambos com o escudo do Confiança no meio do peito.Neste ano,jogamos(eu tenho tudo anotado,pois amava muito jogar no Confiança,uma escola para mim,tanto por lá ter calçado minhas primeiras chuteiras,como por ter disputado competições oficiais)33 jogos,com 16 vitorias,7 empates e 10 derrotas,em uma boa campanha,destacando-se que jogamos algumas vezes no campo do rival e com adversarios categorizados,como os mistos dos profissionais do Bangu,do Olaria(com derrotas em ambos).Destaque-se ainda que nesse ano recebi dois convites para voltar ao futebol profissional,um do Jair Boaventura,técnico do Olaria e outro do Beto,meu ex-tecnico na Portuguesa,que estava no São Cristovão e queria me levar para lá.Imagine se eu aceitaria:ir para time pequeno,levar porrada dos grandes e ganhar miséria e ainda por cima prejudicar meus estudos.Nosso time base era:Eu(Pianowsky);Nenem,Varela(depois Elzio),Pedro e Ivo;Dioclecio e Genival;Zezinho,Nildo,Nego e Esquisito(apelido por correr de forma esquisita).Pode ser visto que também vinham do infanto comigo Deda,Zezinho e Celsinho.Também faziam parte do time Miquimba,Maneco(lateral esquerdo que depois jogou no juvenil do Vasco),Aercio,Deda,França,Toninho,Moreno,Pastor(goleiro reserva) Alemão,dentre outros.O Nego,nosso centro avante era um mulato muito forte e dono de um chute certeiro e muito forte,de derrubar beques e foi personagem de duas ocorrencias hilarias.Em uma nós jogavamos em um dia de muita chuva,com o campo encharcado e a bola pesadíssima contra o time,aliás muito bom,do instituto dos surdos-mudos( o juiz apitava com uma bandeirinha na mão esquerda e o apito na outra,apitando e levantando a bandeira quando tinha alguma marcação)e em uma falta o Nego acertou ma porrada no meio do gol deles e o goleiro abraçou a bola na altura do peito e gritou de dor"mamãe":é verdade,o mudo falou de dor.Na outra faltou água no banheiro do time visitante e eles vieram tomar banho no nosso vestiário e um deles começou a contar vantagem e dizer que ele era do morro e outras coisas mais.O Nego,com vários tomando banho,se emputeceu com as historias do cara e disse o seguinte"porra,morar no morro não é valentia não,é pobreza"Quase deu a brigalhada no banho,com todos pelados e ensaboados...Madeira

O retorno ao Confiança

1958:já que eu não iria mesmo ser um profissional de futebol,estando estudando no Colégio Andrews em Botafogo,pelas manhãs,fazendo o curso clássico,o colegio não tinha futebol,aliás nenhum esporte,com as tardes e noites livres para peladas,mulheres,com dezoito anos,forte,alto,para os padrões de então(hoje tem uma geração de gigantes),voltei para o Confiança e lá fiquei por mais três anos(58/59/60),direto no primeiro time,como titular do então chamado de "amador",pois vinha cheio de nome por ter sido goleiro titular do juvenil da Portuguesa,com jogos passando na TV(então os juvenis faziam as preliminares e como chamariz para os jogos principais o jogo do Maracanã tinha o juvenil televisionado),além de ter durante três anos jogado pelo infanto,disputado o campeonato carioca e com boa participação. O "amador"era o time principal,abaixo tinha os aspirantes e os juvenis(estourava ao fazer dezenove anos) e até os dezessete anos os infanto-juvenis,que só podiam ser inscritos com quinze anos de idade.Não existia infantil,fraldinha,mirim,essas coisas da modernidade.Antes dos quinze anos só se jogava nos colégios ou nas ruas:futebol,organizado,de chuteira só após os quinze anos.Também era obrigatório os infantos jogarem pelas manhãs.Bem,nós do amador jogavamos todos os domingos as 15h15,horário oficial então da FMF,pois a maioria dos estadios não tinham iluminação,com os aspirantes jogando às 13h15.Naquela época o calor era diferente,sendo quente,mas não abafado(efeito da camada de ozonio ainda existente então)e dava para jogar bem,também porque o futebol era de fato menos corrido e mais arte,que outra coisa.Bem,dezoito anos,titular,jogando com caras bons de bola,pois o futebol de varzea no Rio tinha muitos craques,que não quiseram se profissionalizar,fosse pela boemia ou por então jogador de futebol ganhar muito mal,muito pouco e não valer a pena perder a chance de um bom emprego e com isso acabei de conhecer e saber tudo sobre futebol.Treinavamos quem podia e a maioria o podia por ser empregado da fábrica Confiança,nas tardes de quintas feiras,no horário dos jogos e tinhamos um técnico que sabia das coisas,que tinha um bom nivel cultural,sendo gerente de área administrativa na fábrica,o seu Amancio.Ele já armava nosso time no 4x3x3 e por acaso com um falso ponta esquerda,o que Zagallo depois viria a fazer.Eu sempre disse que futebol joga-se com a cabeça e que os pés apenas obedecem e desde aquela época insistia em não dar chutão para a frente,saindo sempre com a bola para um companheiro que estivesse desmarcado.Isso é óbvio pois se tenho a posse da bola e a rifo,a coloco em disputa e se saio trocando passes continuo com a posse dela.Também saía jogando muito com os pés,no que tinha muita facilidade pois jogava futebol de salão,como parado ou ala.Essas ações,como as hoje do Rogerio Ceni,causavam espanto e reclamações de torcedores,acostumados com os goleiros após defenderem um chute adversário,saíam correndo,quicando a bola e em seguida dando um chutão alto para a frente para qualquer lugar,o que na maioria das vezes redundava em um retorno rápido da bola,pois os beques do oponente estando de frente rebatiam de primeira,de cabeça ou com os pés.Eu não concordava e só saía jogando,com meu laterais,com os pés ou com as mãos.Nosso campo,na rua Silva Telles,ao final da mesma,que iniciava-se na rua Barão de Mesquita,ficava a dez/quinzeminutos de minha casa na Antonio Basilio.Era só seguir a Josè Higino até o fim,dobrar a esquerda e cerca de cinquenta metros depois,pegar a direita a Silva Teles.Era um campo oficial(lembrando que o Confiança,na década de 20/30 disputou o campeonato carioca,à época não existia profissionalismo,chegando em um ano a ser quinto colocado,sempre sobre onze/doze times),era gramado(no final do ano estava sempre careca no meio dele,o que levava a ficarem as atividades paradas,entre o Natal e o Carnaval,para replantio da grama)em um terreno muito grande,sendo as balisas encostadas nos muros,uma virada para a rua Silva Teles,onde também era a entrada para o estadio e outra para edificios,com altas cercas para não isolar a bola nos chutes a gol descalibrados.Ao entrar no estadio,todo cercado de alambrado,tinha-se a geral,encostada neste e a arquibancada de madeira,com uma tribuna de honra ao centro,em baixo da qual ficavam os vestiarios,sendo o primeiro,a direita do campo para os visitantes e o da esquerda,mais ao fundo o nosso,com os dos juizes ao centro,entre os dois.Em baixo também funcionava,antes do vestiário dos visitantes o bar,onde vendia-se de tudo,mas principalmente uma cervejinha gelada e onde ficavam os corneteiros,torcedores que só iam lá para criticar.Após ficava mais geral e uma quadra descoberta,de cimento.Ao fundo ficava a rouparia,onde também morava o administrador e faz tudo do clube,o Seu Almeida,um senhor grande,forte,contratado da fábrica com a esposa.Ela era a lavadeira e faxineira do clube e ele o responsável pela rouparia e pela marcação e cuidados com o campo(regar,manter limpo...).Do outro lado,em frente era um grande descampado,com entrada pelo outro lado,que normalmente ficava vazio,mas se a torcida do rival fosse grande,lá era colocada.Esse era nosso estadio,que não era um alçapão,porque era muito largo e grande,não dando para atormentar muito os adversários.Hoje lá funciona a quadra de ensaios da escola de samba Academicos do Salgueiro,nesse espaço vazio,em instalações feitas para tal fim e no resto,onde era o campo,foi construído,pela Petrobrás,um centro cívico,para treinamentos,cursos,com um campo de futebol society,de grama artificial,diminuído em relação ao oficial.Do Confiança antigo,clube da década de 10,resta apenas a arquibancada,que está exatamente como era...Madeira