sábado, 27 de fevereiro de 2010

A Faculdade de Direito Cândido Mendes(1960/64)

Como eu não suportava ciências exatas,tendo mesmo grandes dificuldades com Matemática,Fisica,Quimica e similares,fugi delas desde o hoje ensino médio,indo fazer curso clássico,onde elas não existiam e depois escolhendo uma área de ciências sócio-humanisticas,no caso Direito.Decidida a área,no final de 1959,com o clássico concluído no Andrews e muito bem preparado,pois efetivamente o Andrews era e é um excelente colégio,inscrevi-me em dois vestibulares,então classificatórios e dificilimos,pois a relação candidato vaga era de uma discrepancia imensa.Escolhi a Nacional,federal e a Cândido Mendes,particular a mais antiga e tradicional do Rio,sita em um casarão,onde inclusive tinha residido D.Maria I,mãe de Dom João VI,conhecida como D.Maria,a louca,do qual ainda existe parte,tombada,na Praça XV,em frente a estação das barcas.Passei em ambas,a Cândido em terceiro lugar e optei por ela,apesar de ser paga,face aos movimentos estudantís de então,contra tudo e todos,que levavam a Nacional a viver em greve e sem aulas.O vestibular de então era em duas etapas,a primeira eliminatória e a segunda classificatória,matriculando-se os cem primeiros colocados no somatório das duas notas.A primeira fase era escrita e constava de dois dias de provas escritas,constantes sempre de uma questão discursiva e de duas outras de perguntas,que tinham de ser respondidas desenvolvendo-se um raciocinio(não existiam então questões objetivas).No primeiro dia a prova era só de Lingua Portuguesa e no segundo dia de História e Geografia e de uma lingua estrangeira,à escolha quando da inscrição e que eu tinha optado por françês,todas com questão discursiva,inclusive a lingua estrangeira.Lavei a égua,graças ao Andrews e sem fazer cursinho pré vestibular como todo mundo fazia,sendo na área de Direito o principal o curso Helio Alonso.O curso na Cândido Mendes foi excelente,mesmo eu fazendo parte dos segundo e terceiro ano,assistindo as aulas pela metade,em um tipo semi presencial(foi quando eu fui para Brasilia e entrei para a GEB,isto em 62/63)graças aos meus colegas e a me desdobrar e provar aos professores que o conseguiria.Os professores eram as maiores sumidades de Direito da então Capital Federal,juizes,desembargadores,ministros,autores de livros e com vantagem sobre a Nacional,pois tinham a prática diuturna.Posso citar Celio Borja,o maior constitucionalista brasileiro,que depois foi Ministro da Justiça,os irmãos,ambos juízes,Eliezer e Eleazar Rosas,Cristovam Breiner,um dos maiores civilistas do País,autor de vários livros,João Baptista da Costa,professor de Economia Poltica,também autor consagrado,Heleno Fragoso,o maior criminalista do Brasil,com livros até hoje insuperáveis nessa área,Helio Gomes e seu inseparavel charuto,craque em Medicina Legal,com livros até hoje biblias no assunto,dentre outros.O curso era extremamente puxado,em ritmo anual,não semestral como hoje,dividido em dois semestres,com aulas direto,sem faltas de professores,com dez pontos dados em cada semestre e provas parciais ao final de cada semestre,escritas e orais e depois no final do ano,após as segundas provas parciais,as provas finais,também escritas e orais,com os pontos sorteados pelo inspetor federal,que acompanhava as aulas ocasionalmente e as provas direto.A nota para passar de ano era cinco e sem contemplações,ou seja,ao final não alcançou cinco estava reprovado,podendo sê-lo em até duas matérias que então levava para dependencia,que fazia no ano seguinte,ou seja,já aí atrasava um ano,mas só fazia as disciplinas da reprovação.Se ficasse em mais disciplinas reprovado tinha de fazer todas,mesmo as que tinha sido aprovado.Durante os meses não existiam provas,somente ao final do semestre,conforme calendário,primeiro as escritas,uma por dia,durante os cinco dias da semana(eram senpre,durante todo o ano,cinco disciplinas) e na semana seguinte as orais,também conforme calendário e sem possibilidade de faltar,que significava zero,salvo faltas legais.Ambas eram aterrorizantes,mas as orais eram mais,principalmente as finais,onde você já entrava sabendo quanto precisava para passar,que era o que faltasse para fazer a média aritmetica cinco e na qual caíam todos os assuntos dados no ano.Assim,o ideal era fazer-se o máximo de pontos durante as provas parciais para entrar nas finais precisando de pouquíssimos pontos.Nas parciais era só o professor da disciplina e o inspetor e após você sentar na cadeira perante ele,sem o apoio de nada e de ninguém,com a turma as suas costas,sorteava o ponto e aí ele perguntava o que queria e da forma que queria e você não sabia da nota da hora,que depois era afixada na secretaria.Na final era muito pior,pois você era examinado por uma banca de três examinadores,com a presença do inspetor federal,sendo que o titular da disciplina,após o ponto sorteado por você,dizia o nome do mesmo e mandava você dissertar a respeito,assistindo a tudo impavidamente,sem tugir,nem mugir e você pensando fui bem?,Acertei?Depois ele dizia pode passar para o outro examinador e os outros dois sucessiva e independentemente faziam perguntas soltas sobre o ponto,a maioria sem te ajudar em nada.Ah,o vestibular também funcionou assim...Era foda e comparado com hoje então de lascar mesmo,sem maiores chances.Você tinha de ler muito,estudar muito mesmo.Eu estudava as manhãs e tardes em casa e quando em Brasilia devorava os livros em cima dos programas das disciplinas que recebiamos no inicio do ano,junto com as bibliografias.Eram cursos dificeis,puxadíssimos,mas quem se formava sabia mesmo.Nem precisava e existia prova para a Ordem.Quando voçê terminava o terceiro período,tinha de ir a Ordem e inscrever-se como solicitador,recebendo então uma tipo pré carteira da Ordem,com a inscrição de "Solicitador",que lhe dava direito de assistir a advogados,de frequentar os foruns,acompanhar ações,etc.A minha teve o número 777,o que me fez não esquecer desse fato.Foi um curso excelente,no qual tive um ótimo aproveitamento,terminando-o com média geral/final de 8,04,o que me permitiu inscrever-me no curso de Doutorado da Nacional,único que havia então no Rio,que fiz depois(à época não havia curso de mestrado,apenas de doutorado,no qual podiam inscrever-se quem tivesse média geral acima de oito no curso e sete de média por disciplina).As disciplinas cursadas de que me lembro foram Introdução ao Direito,Direito Romano,Ciência Politica,Economia Politica e Ciência das Finanças,no primeiro ano e depois Direito Constitucional,Direito Penal,Direito Civil,este dividido pelas suas áreas,parte geral,Familia,Sucessões,Coisas,em vários anos,Direito Processual Penal,Direito Processual Civil,Direito Trabalhista e Previdenciário,Direito Internacional Público,Internacional Privado,Medicina Legal,Direito Economico,Direito Financeiro,Direito Admlnistrativo,enfim,para então um currículo excelente.De lá lembro também de que certa feita a UNE tentou fazer ma greve,impedindo que os alunos entrassem para fazer as provas parciais e nós os peitamos e entramos na marra.Valeu minha Faculdade querida e séria,exemplar.Madeira

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