segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
O retorno ao Confiança
1958:já que eu não iria mesmo ser um profissional de futebol,estando estudando no Colégio Andrews em Botafogo,pelas manhãs,fazendo o curso clássico,o colegio não tinha futebol,aliás nenhum esporte,com as tardes e noites livres para peladas,mulheres,com dezoito anos,forte,alto,para os padrões de então(hoje tem uma geração de gigantes),voltei para o Confiança e lá fiquei por mais três anos(58/59/60),direto no primeiro time,como titular do então chamado de "amador",pois vinha cheio de nome por ter sido goleiro titular do juvenil da Portuguesa,com jogos passando na TV(então os juvenis faziam as preliminares e como chamariz para os jogos principais o jogo do Maracanã tinha o juvenil televisionado),além de ter durante três anos jogado pelo infanto,disputado o campeonato carioca e com boa participação. O "amador"era o time principal,abaixo tinha os aspirantes e os juvenis(estourava ao fazer dezenove anos) e até os dezessete anos os infanto-juvenis,que só podiam ser inscritos com quinze anos de idade.Não existia infantil,fraldinha,mirim,essas coisas da modernidade.Antes dos quinze anos só se jogava nos colégios ou nas ruas:futebol,organizado,de chuteira só após os quinze anos.Também era obrigatório os infantos jogarem pelas manhãs.Bem,nós do amador jogavamos todos os domingos as 15h15,horário oficial então da FMF,pois a maioria dos estadios não tinham iluminação,com os aspirantes jogando às 13h15.Naquela época o calor era diferente,sendo quente,mas não abafado(efeito da camada de ozonio ainda existente então)e dava para jogar bem,também porque o futebol era de fato menos corrido e mais arte,que outra coisa.Bem,dezoito anos,titular,jogando com caras bons de bola,pois o futebol de varzea no Rio tinha muitos craques,que não quiseram se profissionalizar,fosse pela boemia ou por então jogador de futebol ganhar muito mal,muito pouco e não valer a pena perder a chance de um bom emprego e com isso acabei de conhecer e saber tudo sobre futebol.Treinavamos quem podia e a maioria o podia por ser empregado da fábrica Confiança,nas tardes de quintas feiras,no horário dos jogos e tinhamos um técnico que sabia das coisas,que tinha um bom nivel cultural,sendo gerente de área administrativa na fábrica,o seu Amancio.Ele já armava nosso time no 4x3x3 e por acaso com um falso ponta esquerda,o que Zagallo depois viria a fazer.Eu sempre disse que futebol joga-se com a cabeça e que os pés apenas obedecem e desde aquela época insistia em não dar chutão para a frente,saindo sempre com a bola para um companheiro que estivesse desmarcado.Isso é óbvio pois se tenho a posse da bola e a rifo,a coloco em disputa e se saio trocando passes continuo com a posse dela.Também saía jogando muito com os pés,no que tinha muita facilidade pois jogava futebol de salão,como parado ou ala.Essas ações,como as hoje do Rogerio Ceni,causavam espanto e reclamações de torcedores,acostumados com os goleiros após defenderem um chute adversário,saíam correndo,quicando a bola e em seguida dando um chutão alto para a frente para qualquer lugar,o que na maioria das vezes redundava em um retorno rápido da bola,pois os beques do oponente estando de frente rebatiam de primeira,de cabeça ou com os pés.Eu não concordava e só saía jogando,com meu laterais,com os pés ou com as mãos.Nosso campo,na rua Silva Telles,ao final da mesma,que iniciava-se na rua Barão de Mesquita,ficava a dez/quinzeminutos de minha casa na Antonio Basilio.Era só seguir a Josè Higino até o fim,dobrar a esquerda e cerca de cinquenta metros depois,pegar a direita a Silva Teles.Era um campo oficial(lembrando que o Confiança,na década de 20/30 disputou o campeonato carioca,à época não existia profissionalismo,chegando em um ano a ser quinto colocado,sempre sobre onze/doze times),era gramado(no final do ano estava sempre careca no meio dele,o que levava a ficarem as atividades paradas,entre o Natal e o Carnaval,para replantio da grama)em um terreno muito grande,sendo as balisas encostadas nos muros,uma virada para a rua Silva Teles,onde também era a entrada para o estadio e outra para edificios,com altas cercas para não isolar a bola nos chutes a gol descalibrados.Ao entrar no estadio,todo cercado de alambrado,tinha-se a geral,encostada neste e a arquibancada de madeira,com uma tribuna de honra ao centro,em baixo da qual ficavam os vestiarios,sendo o primeiro,a direita do campo para os visitantes e o da esquerda,mais ao fundo o nosso,com os dos juizes ao centro,entre os dois.Em baixo também funcionava,antes do vestiário dos visitantes o bar,onde vendia-se de tudo,mas principalmente uma cervejinha gelada e onde ficavam os corneteiros,torcedores que só iam lá para criticar.Após ficava mais geral e uma quadra descoberta,de cimento.Ao fundo ficava a rouparia,onde também morava o administrador e faz tudo do clube,o Seu Almeida,um senhor grande,forte,contratado da fábrica com a esposa.Ela era a lavadeira e faxineira do clube e ele o responsável pela rouparia e pela marcação e cuidados com o campo(regar,manter limpo...).Do outro lado,em frente era um grande descampado,com entrada pelo outro lado,que normalmente ficava vazio,mas se a torcida do rival fosse grande,lá era colocada.Esse era nosso estadio,que não era um alçapão,porque era muito largo e grande,não dando para atormentar muito os adversários.Hoje lá funciona a quadra de ensaios da escola de samba Academicos do Salgueiro,nesse espaço vazio,em instalações feitas para tal fim e no resto,onde era o campo,foi construído,pela Petrobrás,um centro cívico,para treinamentos,cursos,com um campo de futebol society,de grama artificial,diminuído em relação ao oficial.Do Confiança antigo,clube da década de 10,resta apenas a arquibancada,que está exatamente como era...Madeira
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