terça-feira, 17 de agosto de 2010
1983,a familia,as atividades e a passagem de meu pai
Nesse tempo enfim,apesar da mudança radical no nosso viver,sentiamos todos uma sensação nova por termos nos radicado,parado em um lugar,uma cidade,um Estado,podendo fazer planos,ter referencias,amigos e costumes sedimentados. Enfim,tinhamos uma casa,trabalhos fixos,as crianças em colegios pelo tempo que quizessem,uma nova realidade.O trabalho era exaustivo e diversificado,o que para mim era excelente,pois eu nunca tinha tido marasmo,rotina em minhas atividades profissionais e gostava de agitação.Trabalhava em um monte de lugares tanto por gostar do que estava fazendo como pelas despesas da casa serem altas.Lecionava todas as noites em faculdades(Faesa/UVV),nos sabados em cursinhos,tanto para vestibular(Promove/Nacional de Vila Velha/Bac),como para concursos(Dom Bosco,com o Zé Maria),as tardes,quando haviam cursos na Acadepol,cedido pela CST,durante os dias na CST.Aos sabados de manhã cedinho(a partir de seis e meia,antes de ir dar aulas),jogava uma pelada no Alvares,restando os domingos para a familia e nossos piqueniques nas praias.Te envolvida nos dois trabalhos,sempre pelas manhãs na Transbrasil e as tardes na Creche de Carapina,enfim muito trabalho e cuidados com te e as crianças.83 reservou-nos uma surpresa que foi a passagem de meu pai,seu Dias.Em junho fui avisado por meu irmão Sidonio que o nosso pai estava internado na Beneficencia Portuguesa,no Rio,um hospital no qual ele era associado,com suspeita de cancer no pulmão.Combinamos um encontro lá na sexta feira,aproveitando o final de semana, para vê-lo e tomar as decisões que fossem as melhores para ele.Lá chegando fui direto para a Beneficencia,que ficava no Estácio e encontrei-me com Sidonio e fomos vê-lo.Recebeu-nos reclamando muito que não ia mais ficar lá de jeito nenhum,pois contou que um fdp tinha "mandado ele se virar de bruços e enfiado o dedo no meu rabo"(tinha feito um exame de prostata)e ele não ia aceitar ficar mais lá.Perguntei se ele queria ir para minha casa e ele aceitou.De imediato comprei passagens de avião para ele e minha mãe,até aí alheia a isso tudo,para o dia seguinte um sabado,conseguimos convencer os médicos a deixarem ele sair,ter alta,para tanto tendo de assinar um termo de responsabilidade,pois era de fato um cancer nos pulmões,que já não executavam direito as funções respiratorias.Mais uma vez contei com o Levy,que foi chamado por mim ao hospital,examinou as radiografias dos pulmões,que já eram simplemente duas imensas marcas brancas,sem qualquer transparencia e ele concordou que o caso era terminal e o melhor era dar qualidade de vida nessa reta final de vida dele.No sabado peguei a mãe e as coisas deles lá na casa deles,em Vila Isabel,de taxi,rumamos para o hospital,ele arrumou-se todo,colocando um terno com gravata,tudo com muita dificuldade ao respirar e fomos para o Galeão,de onde voamos para Vitoria,chegando cerca das onze horas em casa.Terezinha preparou o almoço que ele gostava,bife a cavalo com fritas,arroz e feijão,um copo de vinho português e ele sentou-se a cabeceira da mesa,almoçou muito bem e depois foi sentar comigo na varanda,para papearmos.Aparentava estar melhor(o canto do cisne)e umas três horas da tarde pediu para ir deitar e o levamos para o quarto preparado para ele que era o do Caio,por ficar ao lado do meu.A partir daí começou o desligamento dele,o processo de falecimento carnal.Começou a arfar fortemente,a ter dificuldade de falar e as quatro horas chamei médicos lá em casa,vindo o secretario de saúde da Serra,então meu colega de secretariado,o Dr.Fernando Herkenhoff e uma pneumologista,esposa de um dos médicos nefrologistas de Te,o Dr.Kalipson.Esta quis levá-lo para internar em um hospital,onde iria fazer uma traqueotomia,ou seja abrir um buraco na garganta para ele poder respirar.Quando ela falou isso ele virou o bicho,tirou forças do interior,mandou ela sair do quarto e ir embora,pois não iria fazer nada disso e iria ficar ali,junto a nós e tratado por nós.Disse que ali ele tinha as melhores enfermeiras do mundo,que eram Terezinha e dona Hilda que estava lá conosco na época(logo depois veio morar em definitivo lá em casa)e que de lá ninguém o tiraria.Foi orientado então que fosse providenciado um balão de oxigenio e instalado ao lado da cama com tubos de saída de ar para as narinas.Isso foi feito e ele passou a noite mal,assistido direto por Te,dona Hilda e eu,atentos a noite toda aos movimentos e ao sofrimento dele.No dia seguinte,um domingo,ele começou a piorar e não admitia sair de lá,do quarto,quando cerca das onze horas Te chamou-me e avisou que não estava saindo ar do tubo de oxigenio e eu saí correndo para comprar outro,com Flavia,acompanhando-me,sentada em cima do tubo,que foi colocado no banco do carona do nosso Passat.Isso era impossivel pois o tubo estava cheio de ar e não saía.Para quem não acredita em "coisas"do mundo maior,esta foi mais uma prova de que elas existem,pois foi só eu sair de casa para ele falecer,pois ao chegar no Hospital São José,onde iria comprar outro tubo já tinha um telefonema de Terezinha,para que eu voltasse pois ele tinha falecido,ou seja,eu não devia assistir essa passagem,que foi assitida por Te e dona Hilda,uma de cada lado da cama,enquanto minha mãe rezava na sala.Mais um detalhe:após o falecimento dele o tubo de ar voltou a funcionar...A partir daí as duas vestiram ele com um terno,como ele gostava,contratei o enterro,com transporte do corpo para o Rio,onde foi feito o enterro.Após ser velado na sala de casa e tudo acertado,inclusive por Sidonio no cemiterio no Rio,na madrugada,viajamos para o Rio,o corpo dele no carro funebre e eu,Te e Flavia,que quis ir,no nosso carro,seguindo-o.Aliás Flavia mostrou como era ao ir e passar por todo o trauma que é uma morte familiar e o pior lá no cemiterio tivemos de ir assitir,pois tinha de ter uma pessoa da familia,a retirada dos restos mortais de um dos enterrados no sepulcro,onde seria colocado o corpo de meu pai(eram os restos mortais de meu tio e padrinho)e ela assistiu tudo ao meu lado,inclusive com todos os maus odores e a fuga de bichinhos desconhecidos que desataram a correr na primeira réstea de luz,que entrou no caixão.Lá foi ele enterrado e perdi na Terra um pai impar,exemplar,que se eu tivesse seguido mais os comportamentos dele não tinha magoado pessoas que tanto amava.Assim,com a ida dele,a saída da Prefeitura da Serra,o retorno a CST,iniciava-se um período de bonança,que duraria até a aposentadoria de Te e a minha saída da CST,isso por cerca de doze anos,que veremos a partir de agora sem ideia cronologica e sim de lugares e assuntos...Madeira
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