sexta-feira, 14 de maio de 2010

O Maranhão de 1972 e minha chegada

Somente os maranhenses podem lembrar e entender o que era o Maranhão no inicio da década de setenta,ou seja uma pobreza absoluta.Choque principalmente para quem era carioca,sempre a capital do País,lá criada,e após uma passagem por Curitiba,modelo de urbanismo,como era o caso de Terezinha,seria e foi um tremendo choque.Para mim,por ser militar,não ter costume de luxos,ter morado em barracos em Brasilia,foi tudo minimizado e até fácil.São Luiz era e é belíssima,em termos de belezas naturais:praias lindas,sem poluição,com os carros indo até a beira da água,pelo tipo de areia,clima gostoso,sempre com uma aragem fresca,ausencia de frio,enfim,em termos de natureza,o paraíso.Mas,era então,de uma pobreza franciscana,tendo apenas um edificio de aptos,com o segundo em construção,casas velhas,que eram de dois tipos,ou bangalôs,como a que consegui alugar,com um pequeníssimo jardim a frente e a casa relativamente grande ou porta e janela,que eram a maioria,conforme o nome diz com a porta na rua e uma janela ao lado,normalmente casas compridas,pois eram todas grandes,face aos maranhenses serem chegados a uma clã,ou seja morarem todos os parentes juntos,sob o mesmo teto.Nos quartos em todas elas existiam ganchos de redes,pois tambem são chegados a dormir em redes.Ruas estreitas,casa velhas e mal cuidadas,ruas sujas com asfalto todo arrebentado,enfim uma calamidade.Não existia matadouro de animais de corte e assim os bovinos e congeneres eram abatidos em um largo,no meio da rua,em um bairro periférico,acho que no Anil e transportados na carroceria de jipes,abertas,até aos açougues,diariamente,para venda ao público.Em cima das carnes ia um homem,armado com um pedaço de pau,que ia espanando as moscas e os demais animais que tentassem pousar ou tirar as carnes...Verduras e legumes não se encontrava e o jeito era comer o que a terra produzia.Antes de apresentar-me lá e assumir o comando,mantive contatos com Brasilia,com a nossa séde e soube do porquê eu estar indo para lá e qual era a missão principal.Esta era a de implantar lá a verdadeira Polícia Federal,imparcial,séria,cumpridora da sua missão doesse a quem doesse.E porque isso?Porque quem estava lá à frente da Delegacia era um Promotor de Justiça do Estado,Dr.Dominici,que não era dos nossos quadros e era natural de lá,o que não estava repercutindo bem,para a nossa Direção Geral.Também recebi do nosso Centro de Informações,que eu tinha ajudado a implantar,um resumo de tudo que tinha na Delegacia e de todo o pessoal que lá estava,com suas alterações e avaliações funcionais.Em resumo era uma tremenda "boca podre",daí a minha escolha,ou seja,quem faz as coisas certas só se fode.A Delegacia funcionava encostada ao centro da cidade,na avenida Getulio Vargas,também conhecida como rua Grande,em um prédio alugado de dois andares,com garagem,tinha poucos servidores,uns cinquenta para cobrir todo o Estado,que era uma grande plantador e exportador de maconha,face ao seu clima ser favorável ao plantio da mesma,poucas viaturas,com seus servidores dividindo-se em dois grupos:uma parte de pessoal velho,optante da policia civil do Rio,que lá estava apenas fazendo tempo para se aposentar,a maioria vivendo de licença médica e se mandando para o Rio e a outra parte de nativos maranhenses,que viviam ancorados nos seus interesses e de suas amizades.Bom,pelo menos eu chegaria sabendo o que me aguardava.Essa característica tornava-os perigosos,principalmente para quem chegasse de fora,pois fatalmente tentariam enredá-lo e conduzí-lo,só que eu chegava sabendo de tudo,quem era cada um dos meus futuros subordinados.Inclusive chegava sózinho,pois o único Delegado lá lotado estava de licença médica no Rio.Era o Dr.Laís Loureiro Alves,que tinha feito o curso de Delegado comigo,era também optante e de idade e que depois tornou-se,no dia a dia de trabalho um grande colega.Assim,eu assumiria e não poderia ser só o administrador,tendo de ser também a autoridade processante.Bem,para sentir como seria a barra o vi,logo ao desembarcar no aeroporto de Tirirical.Para minha surpresa tinham descoberto a data/hora da minha chegada e estava lá uma equipe,em um sabado(eu tinha escolhido o sabado para no final de semana andar pela cidade,fazer um reconhecimento,conversar com populares,para levantar a fama da PF e tinha um encontro agendado com o representante do SNI para o MA,o cmt Rangel,um brilhante oficial da Marinha de Guerra,que ficava baseado em Fortaleza,séde do SNI,indo direto a São Luiz)esperando-me,com carro ostensivo,preto e amarelo,com todo o escândalo possivel.Alguns agentes,todos velhos,de cabelos brancos,cariocas vivenciados em macetes dos distritos do Rio,saudaram-me com muito carinho.Fiquei puto,mas fiquei firme e agradeci,pedi que me conduzissem a um hotel,que ficasse no centro da cidade,fiquei calado durante o trajeto e lá chegando agradeci e liberei-os até segunda,quando deveriam pegar-me no hotel,às sete horas da manhã.No final de semana liguei-me com Terezinha e já dei uma palha do que a esperava,mas sem apavorà-la,pois isso eu sabia que ocorreria quando ela chegasse e depois passeei a vontade,andei todo o centro da cidade,lanchei em umas barraquinhas perto da rodoviária,onde pedi um cachorro quente,conforme cartaz anunciava e comi um pão com carne moída dentro(até que gostei),fui ao um jogo de futebol do campeonato maranhense,no estadio municipal Nhozinho Santos,nome de seu idealizador,entre Sampaio Correa e Moto Clube,o primeiro para quem comecei logo a torcer era tricolor,mas nas cores verde,vermelho e amarelo e o segundo rubro-negro.A história do Sampaio Correa é muito interessante:um grupo de peladeiros,que jogava ao lado do aeroporto de São Luiz,resolveu fundar um time organizado e como não chegaram a um acordo sobre o nome a ser dado ao clube,decidiram que dariam ao clube o nome e as cores do primeiro avião que pousasse no dia seguinte a ata de fundação.Quis o destino que fosse um avião boliviano,com as cores da Bolivia,verde,vermelho e amarelo e que era batizado com o nome de um heroi boliviano,Sampaio Correa.Por isso o Sampaio Correa é chamado por sua torcida de "minha bolivia querida" e seus torcedores são chamados de "bolivianos".Madeira

3 comentários:

  1. Lembro bem do estádio, da casa e do Becacine (ou Becacini?). Das praias compridas e largas tb, claro.

    CAIO

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  2. Acho que Becacine,pois era,supostamente de origem francesa...Velho

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