terça-feira, 7 de julho de 2009
Argeriz/Valpaços/Trás-os-Montes/Portugal(ciclo intermediário)
Por acaso justamente ao fim da infância e inicio da puberdade,ao dez anos,foi trocada toda a minha forma de viver,pois fomos,meus pais e eu,morar um ano,1950,em Portugal,em uma remota aldeia,Argeriz,relativamente próximo da fronteira com a Espanha.Lá,meu pai tinha uma quinta,uma propriedade rural,com uma bela casa,muitas árvores frutíferas,macieiras,pereiras,videiras,castanheiras,oliveiras,outras,bem como plantações de trigo,batata,centeio,outras e algum gado,tanto bovino,como caprino e suíno,além de local para fazer o vinho e o azeite,os denominados "lagar".A casa era composta de uma ampla cozinha e local de refeições,com uma gostosa lareira,que servia de fogão e também de fonte de luz e calor e em seguida tinha uma imensa sala de visitas e de jantar,mobiliada para tanto,com uma pequena varanda,da qual se via a parte da frente da propriedade.A partir da sala,entrando a esquerda existiam os dois quartos,todos imensos,com móveis pesados,antigos,tendo no do meu pai um cofre,onde ele guardava os passaportes e dinheiro.No corredor de acesso aos quartos havia uma escada de acesso a um mirante,que também era um quartinho,com uma cama de solteiro,arrumado,no qual eu gostava de dormir.Era costume nas casas antigas ter esse mirante,para ver se ao longe a chegada de mensageiros e de fato neste caso viamos até muito longe a estrada poeirenta,ainda de terra batida,que ligava Argeriz a Valpaçoes,sede do municipio.Em baixo da casa havia um porão,imenso,onde no inverno,que era muito frio,recolhiam-se os animais e ao lado um deposito,onde guardavam-se os pequenos barris de vinho,de azeite,em outros vasilhames diversos os frutos e pendurado uvas,presuntos,salsichões,tudo objeto das safras e preservado pelo frio do local,até a futura safra.Saindo da casa,pela lateral,próximo a escada,havia a saída para o quintal,com figueiras e a casinha,local para urinar e defecar,pois no interior não existia banheiro,pois não tinha água corrente,sendo toda a água carregada de uma fonte existente a frente da mesma.Na retrete(o cagador)frio de doer,após obrar e limpar,jogava-se um tipo de cal,para corroer as fezes.No inverno era terrível sair de perto da lareira,quentinho e ir lá fora.Bem,nesse ano,extraoficialmente,frequentei,o colégio local,como ouvinte,pois o meu pai era amigo do professor,de nome Martins e conseguiu com ele que eu assitisse as aulas,que eram classes,agrupadas de alunos,só homens,sem ideia de ano e que ensinava,apenas aritmética,lingua portuguesa,história,geografia e ciências.A escola funcionava na casa do professor,sendo acessada pela entrada da casa,passando-se pela varanda e indo reto para uma pequena sala,com cadeiras e mesas comuns,cerca de 15/20,com um quadro negro ao fundo.A direita da varanda então ficava a morada do professor Martins.Eu já sabia de tudo e ficava quieto,só observando e fazendo os deveres.Fora isso,muita molecagem,trepando em todas as árvores,no telhado do paiol,que ficava a uns cinquenta metros da casa e de lá pulando em cima da palha do trigo,Também fazia incursões pelo campo,observando tudo,experimentando frutos,vendo os costumes lusos,andando de carro de boi, trabalhando ou melhor atrapalhando os que trabalhavam,isto quando não viajava com meus pais,para conhecer algum parente ou lugar de Portugal.Na propriedade,como em toda Argeriz,não havia água encanada,nem luz eletrica,sendo esta substituida por grandes candeeiros e aquela carregada em pesados cântaros.Assim,as noites eram frias e escuras,só sendo bom perto da lareira,na cozinha,comendo frutas,presuntos,pão caseiro,castanhas e papeando,com meu pai contando histórias de sua vida, principalmente de quando criança.Foi um ano,mais solto,ainda que no limites da quinta,onde aprendi muito de outra forma de viver,a do interior e na Pátria-Mãe.Madeira
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Curioso que, ao ler, lembrei-me perfeitamente de todos esses locais - fui até o mirante, vi o banheiro fora da casa, passeei pelo quintal e pela casa.
ResponderExcluirEm abril de 2003.
Sensacional.