quarta-feira, 7 de julho de 2010
O transplante
O dia 19 de janeiro de 80 foi o dia mais angustiante que passei e nunca vou esquecê-lo.Terezinha como sempre confiante,corajosa,apesar de chateada,por ver na doação feita por dona Hilda uma agressão ao corpo dela,levantou-se cedo,muito enfraquecida, andou pela casa toda,foi a área externa,onde cuidava de algumas plantas que lá existiam e arrumou-se,sem muitas palavras.Chegamos os três(nós e dona Hilda) ao Hospital São José,por ela escolhido para fazer o transplante renal,pois lá fizera sempre todos os procedimentos de hemodialise,na hora aprazada,às oito horas e fomos encaminhados para um quarto.A equipe médica composta de dois nefrologistas,Dr.Lauro e Dr.Delson,com o apoio de um academico,hoje também nefrologista,o Nilson;um urologista,o Dr.Fabio,dono do Hospital e dois angiologistas,Dr. Monteiro e Dr.João Luiz Sandri,todos já amigos,pelo quase um ano de tratamento e de preparo de TE para o transplante estava confiante,mas nervosa,pois seria aquele o sétimo tansplante de rins a ser feito no Estado,de paciente vivo e somente dois pacientes tinham sobrevivido,um de Domingos Martins e o Carlos,um plantador de abacaxi da Serra.Estavam tão preocupados,pois era o primeiro transplante de alguém de mais alguma projeção,que até as vésperas do transplante tentaram convencer Te a ir fazer o transplante em São Paulo,onde eles tinham todos feito residencia e que era muito mais adiantado do que o ES.Ela negou-se sempre com veemencia,alegando que se o problema tinha se manifestado aqui,aqui que seria o transplante,além do que se desse certo ela iria para a casa dela e ficaria perto dos médicos para qualquer emergencia e se desse errado também estaria junto de toda a familia.A força de vontade dela foi contagiante e acabou por motivar a todos nós e a equipe médica.O Levy veio do Rio,com toda o seu conhecimento médico e amor por nós,além da força espiritual e ficou o tempo todo junto comigo,nos corredores do hospital.Dona Hilda já agarrada conosco há muito tempo,com suas rezas e promessas,foi sorrindo para o ato de doação e amor.Egydio e Ivone chegaram cedinho e lá permaneceram o dia todo.Certamente muitas e muitas equipes de protetores espirituais lá estavam.Ás nove horas,após dona Hilda ter sido levada,despedimo-nos de Terezinha no quarto e ela foi para o centro cirurgico,como sempre com muita briga,pois não queria de forma nenhuma ir de maca,deitada,pois alegava que podia ir andando.Por especial deferencia foi em uma cadeira de rodas hospitalar.Ela não era facil,era dona de uma coragem indômita.A expectativa era de demorar cerca de seis horas,todo o procedimento,pois incluía, tirar um dos rins de dona Hilda(que também já tinha feito todos os exames e tudo estava certo,com a única dúvida de que era um rim de sessenta anos de uso) e concomitantemente colocá-lo em Te,a frente,em um espaço no abdomen,já próximo do quadril dianteiro.Eram portanto duas cirurgias feitas ao mesmo tempo e que consistiam no desligamento de várias arterias e veias,do ureter e outros pequenos órgãos,com a respectiva secagem do que não fosase mais funcionar em dona Hilda e a colocação em TE,com as inúmeras ligações dos mesmos tipos dos desligados de dona Hilda.Os rins de Te que não mais funcionavam e estavam secos,ficariam lá no lugar de sempre,mas sem qualquer utilidade,pois não tinha porque retirá-los.Assim,era de se esperar que cerca das três horas da tarde tivessemos o resultado do transplante. Passei esse tempo todo sentado em uma escada próximo a saída do centro cirurgico, rezando e pedindo aos céus que tudo desse certo.Em um momento nesse espaço de tempo de espera angustiada notei qe ao lado direito de onde eu estava sentado tinha uma saída de metal,por onde retiravam os mortos no dia no hospital e o descobri porque saiu um corpo embrulhado em um lençol,que foi retirado por dois enfermeiros.Imaginem o susto e cagaço que senti,que passei.Na hora do almoço dei um pulo em casa e chequei com Joaninha se estava tudo certo com as crianças e Joaninha é certeza de que tudo correr bem,sempre.Carreguei o Levy comigo e ele também não quis comer.Que amigo,que companheiro.Egydio e Ivone não sairam do hospital e comeram qualquer coisa por ali.Também foram e são dois companheiros especiais.Na minha espera passei por um cagaço imenso,pois a escada onde eu estava sentado,era na passagem da saída do CTI e em um momento passou um morto,que tinha empacotado na operação.Imaginem o medo que me assolou,logo dominado.Somente as quatro e meia é que acabou o transplante,passando dona Hilda primeiro para o quarto dela,onde ficou a Ivone a noite com ela e depois Te,ambas cpmo é lógico apagadas,mas segundo os médicos com tudo certo.Indaguei o porquê da demora e soube que na hora da ligação das artérias do rim,já implantado em Te,o Dr.Monteiro tinha perdido uma delas,que lhe escapuliu das mãos e jorrou sangue longe,o que o levou a se deseperar e a começar a gritar e sapatear,pelo medo de dar errado o procedimento,no que foi ajudado pelo outro angiologista,Dr.Sandri,que a recuperou,estancou o sangue e terminou a suturação.O pior veio depois porque,pelos riscos de rejeição,causada por infecção holspitalar,Te teve de ficar em isolamento,sozinha em um quarto e só podiamos vê-la da porta e acenar para ela,o que durou mais de vinte dias,vinte e três dias no total...Madeira
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